LITERATURA, CIÊNCIA E FILOSOFIA OU A INTERDISCIPLINARIDADE DO AGIR COMUNICATIVO

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            Dentro do capítulo “Progresso técnico e mundo social da vida”, é possível compreender a existência de posicionamentos divergentes no tocante às questões que posicionam a literatura e a ciência frente à frente. Nessa perspectiva, o livro “The two cultures”, publicado por P. C. Snow assume um protagonismo imediato ao reativar a discussão.

         Entretanto, cabe refletir se a “science” exposta no texto não estaria sendo beneficiada pela literatura, já que a mesma, em sentido lato, abrange desde a interpretação a todo um universo técnico e produtivo. Bem, ao que podemos notar, o texto quando específica que o termo “science” pertencente ao âmbito da ciência natural, chega até a expor que o grau de alcance da literatura engloba também o que chama de “ciências do espírito”, mas, é perceptível que inicialmente o texto não se propõe a resolver essa discussão.

          Dado o alto grau de tensionamento entre as posições que se referem à discussão apresentada, não é preterível ao autor, colocar também em destaque o posicionamento de Huxley, que no texto “literatura and science” torna ainda mais evidente a dicotomia comum ao tópico referido. Nisso o texto de Huxley, conforme sublinha Habermas “limita-se, sem dúvida, a um confronto das ciências naturais com a literatura enquanto ‘belas artes’”.

       Mas, ao citar Huxley, Habermas verifica o seu cerne crítico onde as esferas aparentemente distantes do mundo da vida, tanto na ciência quanto nas relações sociais, divergem, mas podem ser dependentes. E, se ao encontrar mencionada a importância do saber enquanto poder, a ciência que detém então um grau de importância total, mesmo para o mundo “comum” por vezes inteiramente imerso na estruturação previamente “calculada”, também pode sofrer pressões desse mundo comum, como por exemplo no caso da produção das bombas atômicas e fatídico caso de Hiroxima e Nagasaki.

       Interessante notar que na reflexão, Habermas demonstra que “o historicismo rompeu a vigência espontânea dos sistemas de valores orientadores da ação. A autocompreensão dos grupos sociais e a imagem do mundo articulada pela linguagem quotidiana são hoje mediadas por uma apropriação hermenêutica das tradições enquanto tradições. Nesta situação, as questões da práxis vital exigem uma discussão racional que não se refere nem aos meios técnicos nem a aplicação das normas de comportamento legadas pela tradição” Ou seja, para Habermas há também um processo gradativo que possibilita um aprofundamento da questão. E, ao invés afirmar as suas dicotomias, poderá fazer a leitura de algumas inter-relações.

     A problemática tal qual foi referida, apresentou-se a consciência, consideravelmente, a partir do século XIX. Contudo, Habermas localiza que dentro do que se produziu no embalo dicotômico das questões referentes a literatura e a ciência, ainda não foi resolvido totalmente o problema de “como é possível a tradução do saber tecnicamente utilizável para a consciência prática do mundo social da vida.” O que, efetivamente buscará esmiuçar dentro do texto referido. Contudo, Habermas falha terrivelmente ao tentar criticar a especialidade dos saberes e, ao mesmo tempo permanecer automatizado na leitura de cada área. De maneira que, para avançar na proposta da interdisciplinaridade, o filósofo precisaria, no mínimo, compreender algumas diferenças pragmáticas que estão além dos assombrosos eventos.

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(Trecho da resenha crítica realizada a partir texto: “Progresso técnico e mundo social da vida”).

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Imagem: Study Of The Effect Of Light On A Profile Head Facsimile. Painted by: Leonardo Da Vinci. Location: Galleria Degli Uffizi, Florence, Italy.

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Bibliografia referenciada:

Habermas, Jürgen. Teoria do Agir Comunicativo – 1 Racionalidade da ação e racionalização social /Trad: Paulo Astor Soethe – São Paulo: Martins Fontes. 2012.

Habermas, Jürgen. Técnica e Ciência como Ideologia. / Trad: Arthur Morão – Lisboa: Edições 70. 1968.