Villa-Lobos, por Manuel Bandeira 

Villa-Lobos, por Manuel Bandeira

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       “Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris espera-se que chegue cheio de Paris. Entretanto, Villa-Lobos chegou de lá cheio de Villa-Lobos. A ardente fé, a vontade tenaz, a fecunda capacidade de trabalho que o caracterizam renovam a cada momento em torno dele aquela atmosfera de egotismo tão propícia às criações verdadeiramente pessoais. A maioria dos artistas estrangeiros que vão a Paris estudar ou trabalhar quase nada logram fazer nos primeiros tempos, se é verdadeiro o depoimento de muitos deles. Fica-lhes a sensibilidade como que desnorteada pelo tumulto de todo um mundo novo de sensações. A sensibilidade de Villa-Lobos, porém, resistiu ao choque traumático Paris. Lá ele é o mesmo Villa-Lobos que seria se vivesse toda a sua vida em Cascadura. Cascadura ou Paris, tudo serve. A formação dos outros como que vem de fora para dentro; a dele, de dentro para fora. Formação vulcânica, não sedimentária. A qualidade dominante do seu espírito vê a imaginação, a que deve a sua música aquela prodigiosa riqueza de ritmos e de combinações de timbres que espantou Schloezer*.

      Villa-Lobos não precisava ouvir com os ouvidos do corpo as excelentes orquestras de Paris. Pela sua imaginação alucinatória ele as antecipava interiormente. Para um espírito dessa feição a surpresa é difícil. Todavia uma coisa o abalou perigosamente: o Sacre du Printemps, de Stravinsky. Foi, confessou-me, a maior emoção musical da sua vida.”

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Villa-Lobos, por Manuel Bandeira, trecho do artigo publicado na revista Ariel, em outubro de 1924.
*Boris Shloezer, crítico e musicólogo russo naturalizado francês.