Mergulho 

Pina Bausch by Maarten Vanden Abeele.

  Mergulho

     Cantam em algumas línguas, que as Sereias podem conduzir os navegadores por águas inimagináveis. Para muitos, elas vivem no mar… Mas, na verdade, elas são representadas em diversas culturas e também vivem nos rios. Na mitologia galesa, por exemplo, elas presenteiam e curam. Mas o que faz com que alguns escritores representem as sereias como perigosas?

        Interessante notar que não é somente com as Sereias que a feminilidade é representada como nociva. Todavia, o discurso de demonização do outro também cria armadilhas para quem o profere. Pois, falar do outro, também é falar de si mesmo.

       Na Mitologia Grega, as Sereias foram marginalizadas por terem ofendido a Deusa Afrodite. Agora, nos perguntemos: Quantas vezes as mulheres são colocadas umas contras outras na disputa por Deuses e Heróis? Segregar o outro para enfraquecê-lo, é uma antiga estratégia de guerra.

        Dentro do “Livro por Vir”, Maurice Blanchot reflete de modo singular: “Houve sempre, entre os homens, um esforço pouco nobre para desacreditar as Sereias, acusando-as simplesmente de mentira: mentirosas quando cantavam, enganadoras quando suspiravam, fictícias quando eram tocadas; em suma, inexistentes, de uma inexistência pueril.”

        Na criação do romance, essa obra de arte tão sinuosa e que possui desdobramentos imensuráveis, as Sereias podem ser a própria narrativa? Nos cantos poéticos, entre métricas e metonímias, as Sereias podem ser a própria música? Porque as Sereias, quando são seres viventes do mar representam tantos temores? Será o mar, a grande Sereia? E, nesse caso, seremos, nós mesmos, esse misterioso mar?

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Eunice Boreal