Caixa postal

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Hoje escrevo de uma forma que nunca costumo. É porque embora tenha aprendido a ler com as cartas, os meus poemas sempre foram por um outro caminho. Por falar nisso, depois que caminhei, consegui escrever mais. É sempre assim: Pra escrever, caminho.

Agora, quero te dizer que naquele dia em que nos abraçamos, eu tinha andado muito e não consegui escrever uma linha. Pensei em dizer tanta coisa, mas fiquei tão emocionada, que apenas sorri. Tropecei tanto nas palavras e até chamei o bêbado do Baudelaire pra falar comigo. Não teve jeito. Você me olhou por cima, com aquela cara de quem desconfia e… Não tive jeito. Pensei comigo: “O que está acontecendo?” Talvez se você tivesse ouvido os meus batimentos, tivesse dito: “É porque você sente tanto, que não está se fazendo entender, pequenina.”

Dias se passaram até que comecei a entender. Na verdade, eu queria apenas te olhar nos olhos. Quando tudo pareceu grandioso e extraordinário, eu só queria te olhar nos olhos. Enquanto eles nos falavam sobre as perdas e ganhos, eu só queria te olhar nos olhos. Quando ouvi você falar sobre a poesia e o big bang, eu só queria te olhar nos olhos. Mas, ainda que eu agradeça porque o cavaleiro esteja sempre do teu lado e te proteja, o fato é que fiquei muito consternada com tanta armadura.

Depois, esqueci de tudo. Esqueci até mesmo daquele poema que eu tinha te escrito. Um poema pensado, mas repleto de afago. Um poema que sempre acredita nas relações que estão além das agressões e dos elogios. Um poema que se faz rio. Um poema pra quem sabe renascer de um mergulho.

O que salvou tudo foi o abraço. Pois foi quando percebi que a armadura era somente imaginaria. Naquele abraço nada nunca existiu… Nem o big bang, nem o homem, nem o macaco. Tudo então se mostrou como uma célula que se celebrava. Naquele abraço todos os séculos se perdoaram em segundos. Naquele abraço, eu te amei por milênios.

Depois de tudo, queria te dizer que, naquele dia, tudo tava tão difícil: O mundo cada vez por um fio e eu aqui, me segurando neste rabisco. Naquele dia, eu tinha caminhado a vida inteira só pra te ouvir falar.

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Eunice Boreal ©