Dandismo Filosófico

Dandismo Filosófico

Marlene Dietrich

          Um Dandy é um criador de si mesmo. Mais do que afeito ao estilo, ao assumir uma postura consciente sobre as possíveis escolhas, o Dandy é a vivência do indivíduo levada ao extremo. Contra qualquer uniforme, a diferença é o avanço. Somente o extraordinário existe. Entretanto, esse caminho não despreza as Grandezas do Ínfimo, muito pelo contrário, estar atento ao canto dos poros é saber reconhecer o requinte da beleza. O Dandismo, tão referenciado pelos estetas ingleses, ganhará também um foco filosófico a partir de Baudelaire. E, através dele, poderemos fazer algumas ligações formadoras da nossa própria leitura. A Poesia renova sempre o pensamento da linguagem.

      Para Baudelaire “nada impede que se pense que as tribos que denominamos selvagens sejam resquícios de grandes civilizações desaparecidas”. Tal afirmação é verdadeiramente autêntica e pode ser colorida por alguns estudos antropológicos. Em algumas tribos da África e também de alguns índios brasileiros, por exemplo, determinada pintura corporal representa a nobreza de quem a contém. Essa personalização tanto conclama lideranças, quanto expõe algumas peculiaridades. Não obstante, se o Poeta fala dos “resquícios das grandes civilizações desaparecidas”, como reconhecer um Dandy dentro de uma tribo cuja civilização ainda é vívida? Estaria o Poeta falando sobre uma espécie de bricolage?

       Compreendemos que, embora o Dandy tenha evidenciado um estilo de vida do século XIX, durante toda a História, muitas personalidades aderiram ao que podemos chamar de autocriação. Ao que parece, em diversos tempos, muito antes de Brummel, outros indivíduos pertenceram à essa “casta altiva”. E, curiosamente, a força desses indivíduos também parece se multiplicar no tempo em que reina a dança da decadanse. Christian Dior e Marlene Dietrich também sabiam disso, e, ao perceberem a decadanse do grande cinema hollywoodiano, evocaram com maestria a figura do Dandy através dos seus trajes. Mas, será que somente os trajes definiriam um Dandy, se este não se afirmasse na sua distinção de caráter? Nesse sentido, independente de tudo, podemos afirmar que: O Dandy é um verdadeiro autor de si mesmo.

         Durante todo o século XX, a questão da autoria foi levantada pelas vanguardas cinematográficas. E, na busca pelo novo, as próprias vanguardas encontraram a necessidade de pesquisar as culturas que as antecederam. Contudo, o problema da originalidade circunda toda a História da Estética. De todo modo, foi graças à modernidade que a técnica e a ciência multiplicaram, entre outras coisas, o conforto diário e originaram o cinema. Entretanto, posteriormente as transformações tecnológicas, ao mesmo tempo que possibilitaram a melhoria da vida comum e o nascimento de outras artes, parecem contribuir com uma deslumbramento coletivo. E nesse tempo, é preciso estar atento para que as ferramentas tecnológicas não dominem mais do que aqueles que julgam dominá-las.

        Agora, enquanto alguns tentam desperdiçar a vida com a sua própria banalidade cotidiana, resta-nos encontrar inspiração na história daqueles que sabem valorizar o tempo das raridades. Entretanto, muito mais do que esmiuçar os paradigmas artísticos, a obra de arte que se revela como um mundo próprio, realiza em si, o ideal do sujeito. Nessa perspectiva, em todos os tempos, um Dandy que vive como uma obra de arte, também revela as potencialidades do ser. E, seja em Baudelaire ou Oscar Wilde, esteja com Balzac ou Marlene Dietrich, o dandismo celebrará sempre o melhor da existência. Pois, na medida em que seleciona as melhores possibilidades vitais e alimenta as grandes virtudes humanas, um Dandy eleva a sua existência até o mais alto grau de altivez.

        Doravante, que tipo de dandismo poderá se apresentar? E, como ele está presente em todos os tempos e, ainda assim, consegue alimentar uma aura original?  Bem, para não banalizar o termo e nos permitir a livre reflexão, acordemos apenas que a nossa formulação passa por um crivo crítico necessário, estuda as minúcias históricas, mas não abre espaço para que qualquer coisa, assumida como gosto singular, seja vista como prática do dandismo. A partir disso, cabe-nos observar a multiplicidade das narrativas e optar pelo que sabe unir o rigor estético-formal ao percurso filosófico. Todavia, outras questões podem ser levantadas… E estas, somente aos poucos serão demonstradas.

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Eunice Boreal ©

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* Afinidades eletivas:

  O Dândi / O pintor da vida Moderna; Charles Baudelaire. Trad: Pedro Tamen.

  The Picture of Dorian Gray; Oscar Wilde.

  Dandismo e Modernidade; Richard Romero.

  Manual do dândi – A vida com estilo; Charles Baudelaire, Honoré de Balzac, Jules Barbey d’Aurevilly (autoria), Tomaz Tadeu (tradução)