Fala por si

Fala por si

Foto Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles
Clarice Lispector. Foto: Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles

           Se você escreve e é mulher, cuidado! Alguma pessoa poderá dizer que você é a nova Clarice Lispector. Nada contra a Lispector, muito pelo contrário, é também em favor dela que me manifesto. Há tempos que se fala na morte do autor, mas é preciso verificar o contexto dessa morte, pois, muito menos trágica do que possa aparentar, ela só está mais próxima da Petite Mort. Ou seja, observemos bem as relações entre ficção e realidade, as questões que tocam a originalidade e outras coisas mais. Dentro disso, sendo o escritor um “bricoleur” ou um verdadeiro alquimista, o fato é que quem encontra o universo das palavras, não quer jamais ser o outro – embora possa ser um e outro ao mesmo tempo. E como diz a própria Clarice: “Escrever é prolongar o tempo, é dividi-lo em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível.”

          É possível encontrar em diversas publicações, tentativas muitas vezes canhestras de equivaler um artista à outro. O que é muito diferente de quando alguém relega atenção minuciosa à um trabalho e reconhece possíveis influências. O segundo caso trata-se de uma leitura refinada, enquanto o primeiro, embora tenha as vezes a intenção elogiosa, está entorpecida, pode confundir o leitor e causar atropelamentos da linguagem. E às vezes o acidente pode cometer uma gafe fatal, quando, por exemplo, a desatenção faz com que chamem uma escritora de o “Proust de saias” como já disseram da Virgínia Woolf. Ora, até parece que para uma mulher ter o seu trabalho reconhecido, precise ser legitimada na comparação com o trabalho do macho soberano… E se a mulher for casada com um escritor homem, o problema pode ser pior ainda, pois, ao invés da sociedade chamá-la dignamente por seu próprio nome, muitos a tratam como “a mulher de fulano”, supondo possívelmente que aquela fêmea pertence ao seu marido. Mas não pertence. E ela tem nome. Falemos os nomes das mulheres escritora – independentemente dos seus relacionamentos amorosos.

        Sim: Quando Virginia Woolf começou a publicar disseram que ela era “Proust de saias”. Quando perguntaram a Clarice Lispector se ela era influenciada por Virginia Woolf, ela disse que jamais leria esse tipo de literatura. Dia 09 de Junho é o aniversário de Pagu, que, segundo o seu filho Geraldo Ferraz, preferia ser chamada de Patrícia Galvão. Patrícia escreveu poemas, fez croquis, criou jornais, viajou por muitos lugares, trouxe a soja pro Brasil e etc. Mas, até hoje, tem gente que prefere chamá-la apenas de “musa modernista”. Quando a gente analisa o discurso, aprende-se muito sobre quem o diz. No entanto, a questão não é tentar castrar os elogios ou o bailado das palavras, mas refletir sobre os paradigmas e as extensões dos termos. Chamar uma mulher de musa, obviamente não é ofensivo, todavia, desfocar a atenção do seu trabalho em prol de outras fantasias, sim. Felizmente, os textos da Patrícia Galvão, Virginia Woolf, Clarice Lispector e do próprio Proust, falam por si. Quem quiser lê-los de verdade, poderá perceber a riqueza de cada um.

         De todo modo, se não houver jeito, pode-se evitar os comparativos e partir honestamente para uma análise das estruturas da linguagem, das significações literárias, das investidas intersemióticas, morfológicas… Enfim, há um universo infindo. Agora se a “análise” pretende ser um fast-food linguístico para tentar lançar novas autoras no mercado, será minimamente delicado notar primeiramente se a jovem autora concorda com esse tipo de jogo, pois, muito mais do que aparecer de qualquer forma, alguns artistas estão realmente ocupados em trabalhar com integridade. E, depois de Rimbaud, ninguém mais precisa provar maturidade artística na juventude. Isso não tem nada a ver com genialidade, e sim, com talento e dedicação.

       E, depois de tudo, lembremos sempre: O mais importante é o texto! Agora se o texto não fala por si, releia ou desista, mas não se iluda… Até mesmo uma jovem autora pode ter lido muito mais do Tratado da Natureza Humana do que você imagina. Além disso, também podemos ler o André Bazin: “A função do critico não é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar ao máximo possível na inteligência e na sensibilidade dos que leem, o impacto da obra de arte.”

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Eunice Boreal

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Ouçamos:

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        “A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos da emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.

     Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem ouve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.”

(Clarice Lispector. “Brincar de pensar”. Livro: A descoberta do mundo. Pág: 4. Editora: Nova Fronteira. 1984)