O tempo de pensar artisticamente

O tempo de pensar artisticamente 

Shakespeare. The Cobbe portrait.
Shakespeare. The Cobbe portrait.

          O que faz com que a arte e a filosofia se unam é a capacidade humana de se encantar e se espantar com o mundo? Será que assim como a Filosofia tem propiciado durante tantos séculos a ampliação de olhares diante das questões humanas, a arte, por sua vez, também tem contribuído com diversas áreas do conhecimento humano?  Interessante notar que os registros que temos acesso hoje, mostram que os primeiros filósofos também escreviam poemas. Entre eles, um dos poemas mais lidos é o poema de Parmênides, cujo trecho nos diz:

“ Mas, uma vez que tudo é chamado luz ou noite
e conforme a estas potências é dado a isto e àquilo,
tudo é igualmente cheio de luz e de noite obscura,
ambas iguais, visto cada uma delas ser como nada.”

      Os registros também podem mostrar que, as primeiras pessoas que fizeram filosofia relegavam importância especial à arte. Em Pitágoras, por exemplo, quando se analisa a música através de seus atributos matemáticos, percebemos que, séculos antes de se falar em “arte e tecnologia”, a atividade filosófica já tornava perceptível que a criação artística tem o poder de contribuir com as mais variadas áreas do saber. Entretanto, quando estudamos sobre a antiguidade clássica, referências apontam Platão e Artistóteles como iniciadores de uma reflexão mais específica sobre a arte. Isso ocorre porque Platão, no livro Hípias Maior, no livro X da República, em Íon e também em outras obras, dedica-se à pensar a arte. E porque o Aristóteles cria uma obra* inteira para falar sobre isso. Todavia, se nos propusermos à investigar minuciosamente as sementes discursivas da Estética na antiguidade, dedicaremos inteira atenção aos contextos e as terminologias. E, para isso, além de entender o conceito mimesis, precisaremos diferenciar bem estética e poética.

       Alguns teóricos apontam que até o século XVIII, a arte esteve à mercê de outros ideais, considerados secundários ao intrínseco valor estético que é próprio da arte. E que, também por isso, só é possível pensar em uma Estética Filosófica, quando se põe em foco a arte em si. Não obstante, caberia à Estética Filosófica a missão de avaliar somente a estrutura formal de uma obra de arte? Caberia ao artista a missão de trabalhar apenas a forma da arte? Ou, pelo contrário, caberia à Estética Filosófica somente a análise conceitual da obra? E, nesse caso, caberia também ao artista apenas a criação do conceito da obra? Dentro de tudo, nós perguntamos: até  que ponto os conceitos de representação foram ultrapassados e quanto percebemos que a Arte, em seu aspecto formal e conteudístico gera avanços e influencia outras áreas de conhecimento? Bem, cada vertente escolherá uma defesa, entretanto, vale lembrar que tão rica em forma quanto em conteúdo, a obra de James Joyce encontra inspiração conceitual em Tomás de Aquino quando o Filósofo diz que: a Integridade, a harmonia e a claridade são os princípios da teoria da beleza.

        Leonardo Da Vinci, em seu “Paragone” defende que a pintura e a escultura são artes teóricas, dadas às utilizações da perspectiva e das teorias matemáticas da proporção e o saber Histórico que um artista precisa para construir uma obra. Sua defesa consiste em se posicionar no debate que confronta o valor das atividades manuais e as atividades intelectuais, pois, naquele tempo, alguns acreditavam que as artes literárias eram superiores às outras… Da mesma forma que alguns já acreditaram que artistas não podem ser racionalistas, cabendo-lhes somente o direito à epifania. Pensar sobre isso é bastante interessante, pois, se na contemporaneidade artista pode saber o máximo sobre as extensões sensíveis e intelectivas da sua obra, notaremos que os conhecimentos da Estética Filosófica poderão ampliar as noções interdisciplinares. Assim, como também é possível refletir que, da mesma maneira que a criação dos versos hendecassílabos e os rascunhos de Picasso exigem tanto da atividade intelectual, quanto da sensibilidade, esses mesmos atributos estão presentes quando Einstein faz a equação que prova a equivalência massa-energia. Ou, com diz Fernando Pessoa: “O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo.”

        De acordo com Luigi Pareyson, a estética pode ser entendida por “toda teoria que, de qualquer modo, se refira à beleza ou à arte: seja qual for a maneira como se delineie tal teoria – ou como metafísica que deduz uma doutrina particular de princípios sistemáticos, ou como fenômeno que interroga e faz falar os dados concretos da experiência, ou como metodologia da leitura e crítica das obras de arte, e até como complexo de observação técnica e de preceitos que possam interessar tanto a artistas quanto a críticos e historiadores”. Contudo, embora desde a antiguidade grega diversos filósofos tenham refletido sobre a importância da arte e da beleza, a Estética começou a figurar verdadeiramente como área de investigação filosófica, muito a posteriori. Hoje, tamanha é a importância da Estética como área de pesquisa, que além da conferência anual organizada pela British Society of Aestethics, universidades como Harvard, Yale e Oxford, publicam centenas de artigos e livros como resultado dos cursos que evidenciam a seriedade e a interdisciplinaridade de uma área da filosofia que conquista cada vez mais importância no mundo inteiro.

       Durante toda a História da Filosofia, muitos pensadores se dedicaram a escrever sobre a arte. E tal é a importância dessa atividade humana, que fez com que Aristoteles dissertasse sobre as características que lhe foram perceptíveis na “Poética” e inspirou Tomás de Aquino na reflexão sobre a beleza dentro da “Suma Teológica”. Convocou David Hume pra explicar em seu “Tratado da natureza humana” a beleza sob a ótica das paixões, proliferou ideias em Immanuel Kant pra defender a sua “Crítica do Juízo” e desafiou Hegel à construir os seus “Cursos de Estética”. Arthur Danto, então influenciado por Hegel, vai analisar a arte contemporânea depois da compreensão do mundo hegeliano. Umberto Eco, por sua vez, também encontrará em Tomás de Aquino um bom cerne discursivo que fundamenta a estética filosófica. E, assim como Filósofos reconheceram a importância de se pensar a arte, artistas também encontraram na filosofia uma grande fonte, que alimenta algumas das melhores obras de arte do mundo. Entre elas, podemos lembrar das pinturas do já citado Leonardo Da Vinci, as obras de William Shakespeare, os poemas de Safo e a música de Richard Wagner. Além, claro, dos outros inúmeros artistas-filósofos e filósofos-artistas que enriquecem a História.

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Eunice Boreal ©

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ps: Cada arte pode suscitar infindas problemáticas. Analisá-las a partir da filosofia, de forma criteriosa, pode enriquecer as nossas leituras.

ps2: Este texto, assim como outros que são apresentados neste site, não tem a intenção de abranger tudo de todos. Mas, tão somente, refletir e fazer ligações que julgo importantes.

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Boas Leituras:

 Poética. Aristóteles. Tradução: Paulo Pinheiro. Editora 34.

 Parmênides. Da Natureza. Tradução: José Gabriel Trindade dos Santos. São Paulo, Loyola, 2002.

 Os Pré-Socráticos – Vida e Obra. São Paulo, Editora Nova Cultural Ltda, 1996.

 KIRK, G. S. e RAVEN, J. E. Os filósofos pré-socráticos. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982.

 Platão. Hípias Maior.

_______ República.

_______ Íon.

 Pareyson, Luigi. Os problemas da estética. Tradução: Maria Helena Nery Garcez. São Paulo, Martins Fontes, 1997.

 Osborne, Harold. Estética e Teoria da Arte. Tradução: Octavio Mendes Cajado. São Paulo, Editora Cultrix, 1970.

 Safo, Líricas em Fragmentos, Vega, 1991.

James Joyce.

 Aquino, Tomás de. Suma Teológica.

 Da Vinci, Leonardo. Paragone.