Poemas em fotogramas ou o Cinema de Poesia

         Notamos em algumas afinidades, que a poesia também é uma nascente do cinema. Dentro do labor criativo de Vera Chytilová, por exemplo, o cinema nos conduz à uma vivência polissêmica, onde textos e locações se encontram e se afirmam como metáforas. A reflexão teórica de Pasolini tanto fornece a ideia do seu jogo de câmera, quanto nos mostra as escolhas do seu poema. Ou seja, cada Poeta do cinema também tem o seu estilo. Mas há algo que une tão distintos autores, e que também surge do nítido interesse de se fazer poesia. É que Vera Chytilová, Buñuel, Agnes Varda, Godard e demais poetas do cinema, ao trazerem recursos poéticos para os filmes, expandem a linguagem. E, se como diz o Manoel de Barros: “Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos – O verbo tem que pegar delírio.” Então, é dentro do cinema de poesia que a linguagem delira.

              Mas um Poeta não é um mero sonhador. Ao atravessar o espelho, o Orpheu de Jean Cocteau não está sonhando. Maria Casares não sonhou que era, ela própria, a morte. Ulisses não era um sonhador em Tróia… E, mesmo assim, teve que encarar os seus maiores Deuses e monstros. Hilda Hilst não estava sonhando ao escrever a “Ode descontínua e remota para flauta e oboé”. Um Poeta não é um mero sonhador, não porque se tornou um ser amargo à negar tudo que não esteja sob o seu domínio. Uma Poeta não é um sonhadora, não porque tenta suprimir aquilo que lhe parece estranho. Um Poeta ou uma Poeta, sabe que a vida também é sonho. E, sendo a artista, com todas as suas vivências e impressões, a primeira matéria da sua arte, transmutada em versos ou melodias, pintada em paredes ou filmando personagens, uma Poeta faz em si mesma, a vida do seu próprio sonho.

        É de grande força também perceber o questionamento implícito à suposta supremacia da racionalidade. Ao aderir o sonho como matéria prima, alguns artistas revelam caminhos para outros saberes. No encontro do pensar e do fazer artístico, alguns desses trabalhos, ao proporem o diálogo, tentam ver além das dicotomias. E, seja na inspiração de um pré-cinema ou de um cinema pós-histórico, o cinema de poesia, muito além de ser definido pela quantidade de tempo ou pelo formato do seu aparelho de gravação, situa-se bem mais próximo das simbologias. Todavia, ao superar dicotomias, também é possível fundi-las. Ou seja,  através de novas e velhas tecnologias, a criação de sentidos ou a ruptura deles se apresenta de acordo com cada proposta poética. Mas isso não implica dizer que uma precise negar a outra, elas podem coexistir e até formular uma terceira. Assim como, ao invés de partir para uma negação imediatista da razão, pode-se reconhecer o seu melhor e também expandi-lo.

             O próprio cinema, em seu princípio, era amórfico. Mas foi nesse tempo que conquistou sua magia brilhando entre performances e shows de variedades. E assim como o cinema, ao nascer, canta em fotogramas, a Poesia também pode se travestir de múltiplas linguagens. Ao pensar sobre isso, notamos a imensa criatividade no que chamamos de primeiro cinema. Com pouca tecnologia e com muito experimento, os poemas em fotogramas se relacionam com diversas Artes e criam significados intersemióticos. Poemas confabulam com a música, as artes visuais e o cinema. Instalações, desenhos e performances transformam-se em fotografias e, estas, por sua vez, estruturam-se em planos-sequência cinematográficos. Mas é sempre preciso cultivar o apreço e o cuidado: Mesmo quando o poético ultrapassa o literário (ele pode estar em todos os lugares), nada se passa por algo. Ou seja, um bom poema não preenche uma imagem, assim como uma imagem não precisa ilustrar um poema. Fonemas e cores vibram luzes distintas… E, dentro dessa polifonia audiovisual, cada signo fala por si mesmo. A articulação é uma questão do estilo. Nessa perspectiva, assim como a música, as artes plásticas e o cinema reluzem entre os versos de um mesmo poema, a poesia, a música e as artes plásticas unem-se para a realização do cinema.

          Considero a escolha das referências como algo primordial. Ao reconhecer as afinidades, definimos escolhas temáticas e formais. Essas escolhas, seja para a realização de um trabalho ou de uma obra, delimitam os objetivos existenciais do artista. Quando comecei a unir o trabalho empírico ao estudo da estética filosófica, por exemplo, muitas leituras enriqueceram o processo criativo. Descobri que esse é o meu caminho. O pensar criativo move o meu trabalho, assim como o sentir e a intuição. Ao respeitar a sistemática dos estudos e ampliar os experimentos poéticos, a reflexão teórica longe de suprimir o inefável instante da criação, acolheu e estimulou novas produções táctilfilosóficas. Analisar criticamente a História e absorver o que consideramos qualitativo nos trabalhos anteriores, nos ajuda a superar tudo o que pode ser desnecessário, clichê ou preguiçoso. Mas cada processo revela a sua grandeza e, ao invés de reproduzir pseudoreceitas, o encontro com as afinidades deve, na verdade, impulsionar outras leituras.

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Eunice Boreal

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TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo; [tradução Jefferson Luiz Camargo]. – 2- ed. – São Paulo : Martins Fontes. 1998. Título original: Díe Versiegelte Zeh.

MASCARELLO, Fernando (org). História do Cinema Mundial. Campinas: Papirus , 2007.

PASOLINI, P. P. Empirismo hereje. Trad. Miguel S. Pereira. Lisboa: Assírio & Alvim, 1982. Título original: Empirismo eretico.

La politique des auteurs, edited by André Bazin. Interviews with Robert Bresson, Jean Renoir, Luis Buñuel, Howard Hawks, Alfred Hitchcock, Fritz Lang, Orson Welles, Michelangelo Antonioni, Carl Theodor Dreyer and Roberto Rossellini.